Quanto vale a reputação de um jornal?

Em tempo de eleições, é normal que eleitores simpáticos a determinados candidatos e contrários a outros abracem a causa e façam discussões acaloradas. Aos veículos de comunicação, cabe fazer a cobertura da campanha eleitoral com isonomia. Mas este provavelmente não é o caso de um dos principais jornais do Brasil, a Folha de S. Paulo. Assim como outros veículos impressos, como o jornal O Globo, Estado de São Paulo e revista Veja, a cobertura da campanha aparenta pender para o lado tucano da disputa eleitoral à Presidência da República. A questão da quebra de sigilo fiscal de pessoas ligadas ao candidato José Serra (PSDB) tem rendido manchetes diárias. Algumas, repetitivas, sem novidades e com clara intenção de colar o fato à campanha de Dilma Rousseff (PT).

Edição de 5 de setembro de 2010

No entanto, a manchete da Folha de S. Paulo, domingo (5/9), forçava a barra. A candidata petista, está há quase um ano afastada da chefia da Casa Civil e bem mais do que isso do Ministério de Minas e Energia. E o jornal publica algo que a acusa, sem esclarecer bem a ligação dela com a questão da luz. O resultado foi uma execração pública do veículo no Twitter, com a criação da hashtag #DilmaFactsByFolha por militantes do Partido dos Trabalhadores e simpatizantes, com difusão espontânea por internautas que notaram de forma nítida, a tentativa de colar um fato negativo na candidata petista por parte da Folha de S. Paulo. Numa prática que é muito comum nos pequenos jornais do interior do País (já vi e ouvi muito disso em Tubarão/SC, onde nasci e fui criado).

Na comunidade de jornalistas e comunicadores Comunique-se, a ação e reação causou grande repercussão depois de matéria publicada no site no dia 6.

#DilmaFactsByFolha ocupa topo do Twitter e internautas questionam jornal

Izabela Vasconcelos

Nesta segunda-feira (6/9) a Folha de S. Paulo é um dos assuntos mais comentados no Twitter. A hashtag #DilmaFactsByFolha ocupou o terceiro lugar no Trending Topics mundial, e foi citado no ranking divulgado pelo jornal britânico The Independent. No final desta tarde, a tag ocupa o sexto lugar. Com a campanha, os internautas questionam a imparcialidade da Folha no tratamento dado à candidata à Presidência da República, Dilma Rousseff (PT).

O movimento virtual começou depois que a Folha publicou a manchete “Consumidor de luz pagou R$ 1 bi por falha de Dilma”, na edição de domingo (5/9). De acordo com os posts dos twitteiros, que abordaram o assunto com humor, a Folha destacaria Dilma como ‘culpada’ em várias situações, muitas delas inusitadas.

Procurada pela reportagem, a Folha ainda não se pronunciou sobre o assunto.

A reposta da Folha veio neste dia 8.

Folha encara campanha #DilmaFactsByFolha com naturalidade

Izabela Vasconcelos

A Folha de S. Paulo considera natural a campanha que colocou seu nome e o da candidata à Presidência da República, Dilma Rousseff (PT), no topo do Trending Topics, como um dos assuntos mais comentados no Twitter. A campanha crítica #DilmaFactsByFolha questionava a imparcialidade do jornal no tratamento dado à candidata e foi destaque na segunda-feira (6/9).

Segundo os twitteiros, que abordaram o assunto com humor, a Folha ‘culparia’ Dilma por vários problemas e situações, muitas delas inusitadas.

Em resposta, o jornal alegou ser crítico, pluralista e apartidário. A Folha também considera que o uso do humor é uma das características das redes sociais, e que a crítica se acentua em período eleitoral.

“A Folha encara com normalidade a popularidade da hashtag #DilmaFactsbyFolha, ocorrida em 5/9/2010, quando publicou a reportagem ‘Consumidor de luz pagou R$ 1 bi por falha de Dilma’. Entre os princípios editoriais da Folha está o jornalismo crítico, pluralista e apartidário. Reportagens críticas naturalmente despertam reação, especialmente em período eleitoral e entre os militantes dos candidatos. Além disso, o uso do humor é uma das características das mídias sociais, o que faz com que a expressão tenha sido naturalmente utilizada por internautas de diferentes tendências”, dizia o comunicado.

A reposta do jornal paulista não poderia ser mais evasiva. Tenta ignorar o poder da mídia social, aquela que ela tanto badala junto a seus leitores. E pasteuriza o ocorrido sob a ótica do humor.

Ainda insisto: há organizações, empresas e pessoas que não sabem utilizar as mídias sociais, em especial o Twitter. Acham que tem que comunicar algo invés de se comunicar, independente de querer ofertar algo. Isso não acontece, por que simplesmente se sentem mais confortáveis em disparar mensagens no meio, mas nunca respondê-las ou interagi-las com os seus seguidores ou visitantes.

As mídias sociais são muito boas enquanto nos trazem prestígio. Mas basta uma deslizada para que parte da opinião pública caia em cima com tudo. Nada passa batido. Certamente, o que aconteceu com a Folha na mídia social a fará ser ainda mais discreta, reduzindo sua participação nas “tuitadas”.

Vale a reputação de um veículo de comunicação abraçar a causa de um candidato e comprar a briga? Acho que não. Quem perde com isso é seu leitor, que está abaixo dos interesses dos proprietários e acionistas da empresa jornalística. Mas seria honesto que as empresas de comunicação declarassem apoio a alguém. Não existe exemplo maior de transparência.

A vez da Internet

Na última edição do ABC Domingo, foi publicada uma entrevista que fiz com o Conrado Adolpho Vaz, especialista em Marketing Digital, autor do livro Google Marketing – O Guia Definitivo do Marketing Digital. Para ele, os políticos não sabem utilizar as redes e mídias sociais. “Os políticos precisam ser ‘produtos’ melhores para que tenham sucesso na web. Na era da transparência, como que a rede vai disseminar um produto ruim? Os políticos no Brasil são a classe mais desacreditada que há”, critica.

Contudo, se por um lado os políticos ainda são produtos que “não-virais”, o uso das ferramentas da web 2.0 tem feito destas eleições um jogo da verdade. Quem fala ou inventa alguma inverdade ou algo infundado nos meios de comunicação tradicionais (rádio, tevê, impresso e seus portais na rede) está sendo combatido na blogosfera e mídias sociais.

Mesmo que os veículos de comunicação se digam apartidários e isentos e a minoria da população brasileira acesse a Internet, é a rede de computadores que garante a pluralidade de opiniões nestas eleições. E qualquer tentativa de repressão à web tem que ser combatida e repudiada de imediato. Afinal, o Brasil não é um País democrático?

Saiba mais

Comunique-se
Leia as matérias originais: #DilmaFactsByFolha ocupa topo do Twitter e internautas questionam jornal e Folha encara campanha #DilmaFactsByFolha com naturalidade

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“A internet existe independente do Google”, diz especialista

10 Respostas

  1. show de bola! RT @gabrielzguedes: @caroltatsch Dá uma lida e depois diga o que tu achou: http://bit.ly/cInZbD

  2. @catiachagas Tu que tem blogado análises eleitorais, resolvi escrever uma que avança também no campo da política http://bit.ly/cInZbD

  3. @caroltatsch Dá uma lida e depois diga o que tu achou: http://bit.ly/cInZbD

  4. Dependendo do jornal, menos que um ovo… RT @gabrielzguedes: Quanto vale a reputação de um jornal? http://bit.ly/a0tWpd

  5. @Robertamanica Uma sugestão de leitura para você: http://bit.ly/cInZbD

  6. Belo post RT @gabrielzguedes: Quanto vale a reputação de um jornal? http://bit.ly/a0tWpd

  7. @andersonpaes @eduardosdaniel Deem uma lida nest post RT @gabrielzguedes: Quanto vale a reputação de um jornal? http://bit.ly/a0tWpd

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  10. Roberta Mânica

    Guedes,

    A pertinência da sua análise nos faz refletir mais uma vez sobre o papel social exercido pelo jornalismo. O conflito que permeia nossa profissão está, justamente , na falsa ideia da totalidade do conhecimento. Ego: dos pequenos aos grandes veículos confundem a popularidade, com domínio da verdade. Uma pena que grandes veículos ignorem a importância das redes sociais para a compreensão crítica dos fatos.

    Você, brilhante como sempre, descreveu neste post, as tensões próprias do jornalismo neste jogo de poder e assimetrias. Parabéns!