Com vocês, Pingo!

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Pingo

O cachorrinho acima é o Pingo. A história do Pingo é assim: ele foi deixado para trás por uma família, que foi embora de mudança.

Uma vez, quando minha noiva seguia para o trabalho, às 5 horas da manhã, apareceu aquele cachorro correndo atrás, com aquela cara de quem caiu da mudança (!). No dia seguinte, lá surge o cachorrinho, se espremendo para transpassar as grades da casa de seus antigos donos. Na outra madrugada, de novo aparece ele. Como num ritual, ele nos escolta até a parada de ônibus diariamente, aparentando uma satisfação enorme: sacudindo o rabo, pulando, nos mirando com aquele olhar afetuoso. E todo dia era isso: o cachorro vai até a parada de ônibus e volta para seu “lar”.

Como assim? Ele nos conheceu ontem. Não fazia cerimônia para marcar presença. Com frio de “renguear cusco”, vendaval, raios e trovoadas e até chuva forte, lá estava o cusquinho. Quem não se admira com tamanha lealdade? É, o cachorro passou a ser companheiro de luta deste jovem casal.

No entanto, tamanha disposição quase lhe custou a vida. Doente, contraiu uma pneumonia. Nos vimos ainda mais obrigados a não deixar na mão nosso mais novo amigo. Com três cachorros gigantes habitando a casa da Moni, o jeito foi conseguir uma caixinha de papelão, uma coberta e um pote com ração e deixá-lo sob o telhado do portal existente na entrada da garagem, fora do terreno. Abrigado do frio e da umidade, recebeu tratamento veterinário. Não só isso, recebeu o nome de Pingo. Sim, branquinho com manchas de cor marrom e preta, lembra o café com “pingos” de leite. Passados 20 dias, Pingo já estava recuperado. Vigoroso, voltou a cumprir o ritual de nos acompanhar até a parada de ônibus. Não só isso, também começou a nos acompanhar até as portas do supermercado.

Com a caixinha como seu novo lar, descobrimos que Pingo se tornou também um cão de guarda da casa. Mesmo morando do lado de fora. A cara simpática não deixa transparecer, mas o bicho acua para alguns desconhecidos e aqueles que ele julga ser não bem apessoados. Digamos, que além da amizade, ele ainda nos brinda com sua coragem.

E veja bem: coração de cachorro é tão grande quanto o de mãe. Mesmo com a pequena caixa, ideal para conter apenas sua estatura, Pingo ainda abriga outro cachorrinho (cachorrinho de pequeno mesmo). Esse tem dono, que o deixa escapar e não o cuida (o pelo está embolotado, etc). Mas Pingo não quer saber disso. Deixa o parceiro co-habitar sua caixa de papelão:

– Pode chegar. Aqui tenho água e ração. Quer um pouco?

Quando não está na caixa, a dupla se diverte brincando, simulando mordidas e por vezes, lembrando abraços.

Pingo definitivamente nos conquistou.

Melhor do que apreciar sua companhia em meio a gelada madrugada capilé, é chegar em casa após mais um dia de trabalho. Há uma quadra de distância, Pingo vem a galope, com aquela língua para fora e orelhas tremulando, e chegando com as duas patas dianteiras em pé, arrasadoras, como se quisesse dar um abraço em alguém que não vê há uns seis meses.

Uma lição de vida deste cachorro, que consegue ser mais humano que muitos homens.

4 Respostas

  1. Simone Boettcher

    Belíssimo texto! Homenagem mais que merecida! Grande PINGO!

  2. Laura Píffero

    Nossa Gabriel, que coisa linda! Pra mim, que sou absurdamente cachorreira, isso emociona. Parabéns por terem cuidado dele. Eles são muito, mais muito mais humanos do que aqueles que se dizem civilizados, mas largam um bicho a própria sorte quando resolvem mudar de casa.

  3. Coisa mais querida do mundo… (arruma um cantinho pra ele dentro de casa?, heheheh).

  4. Tássia Búrigo e Silva

    Parabéns pela crônica e, ainda mais, por ter adotado a companhia desse serzinho abandonado… Como pode alguém cuidar a vida inteira de um cão e, de uma hora pra outra, ignora-lo, como pode? Deveriam ser severamente punidos!
    Belo gesto, casal!