Caminho estrangulado

Há meses tenho conversado com meu pai sobre a situação da duplicação da BR-101 de Osório (RS) a Palhoça (SC). Em comum, nos preocupamos com o andamento da obra em pontos cruciais: túnel do Morro do Formigão (Tubarão), Ponte da Cabeçuda (Laguna) e túnel do Morro dos Cavalo (Palhoça).

Os três locais não tiveram obras iniciadas. Ainda estão em licitação. No entanto, dos três, o que me deixa apreensivo é a Ponte da Cabeçuda, a maior das obras pendentes. Uma ponte com 2,5 quilômetros de extensão, quatro pistas, em curva e a grande altura da lâmina d’água. É uma senhora obra e que precisa começar urgente. Corre-se o risco de terminar (quase) toda duplicação e a ponte ficar para trás, deixando um gargalo, um estrangulamento da principal ligação entre Porto Alegre e Florianópolis e vice-versa.

Ainda tem mais: a atual Ponte da Cabeçuda está fragilizada. Meu pai, ainda quando estava no Diário do Sul, há uns 10 anos, fez reportagem denunciando o estado da ponte: corroída pela maresia, já não suportava mais a a carga de tráfego da BR-101. A travessia do canal das Laranjeiras sofreu reparos, mas ainda está com limite de peso até hoje. O que significa que a qualquer momento pode acontecer uma avaria mais grave e a região ficar sem ligação norte-sul. Um desastre se isso acontecer em meio a temporada de verão para o Litoral Sul de Santa Catarina.

Neste dia 17, o cronista Walter Galvani, que escreve no ABC Domingo, jornal onde também trabalho e que circula em 53 municípios do nordeste gaúcho e Grande Porto Alegre, levantou o assunto. Confira o artigo.

Walter Galvani
Vai trancar tudo na ponte

O feriadão de Nossa Senhora Aparecida e o Dia da Criança, mais em alguns casos o Dia do Professor, somados aos pontos facultativos do Estado, acabaram, tudo somado, numa verdadeira semana de férias. E, uma semana de férias, só poderia gerar o que gerou: uma corrida dos gaúchos à Santa Catarina.

Eu próprio me meti na estrada e fui curtir Florianópolis, ver como as coisas andam por lá, visitar o grande escritor Salim Miguel que operou um olho, mas enxerga mais do que nós todos juntos… Então, caí na estrada e fui me embora acreditando na quase conclusão da BR-101. Melhorou bastante. A duplicação vai bem adiantada e no mínimo uma hora ganhou-se, como comentei com minha companheira e também jornalista Carla Irigaray. E lá nós fomos, muito felizes, estrada afora.

E então, passamos também por dificuldades, sofremos um pouco para cruzar Tubarão, onde a obra está atrasada e também para chegar a Capivari de Baixo.

Ali mesmo passamos diante do estádio do E. C. Bandeirantes de Vila Flor e lembramos, encantados, que eu costumo brincar com a ideia de que, a qualquer momento, ele estará na primeira divisão do futebol brasileiro.

“Pois é” – disse minha esposa “mas quero ver em Laguna”…

Ela é uma cética, muito mais do que eu, e daqui a pouco chegávamos à maravilhosa cidade de Anita, tão lembrada e importante para nós, gaúchos. Claro que aos tempos de Garibaldi não havia nenhuma ponte, mas desde a minha primeira passagem por ali, me acostumei a ver uma ponte estreitinha, com tráfego nas duas direções que na certa não servirá de via para uma autoestrada futura. Isso há cinquenta anos, e tanto.

Ali não há nada, nenhuma indicação de que a BR-101 gloriosamente atravessará o centro histórico de Laguna.

Então, todo o trânsito que se soltou, nos dois lados da antiga cidade, aproveitando a duplicação que em alguns casos vai bastante adiantada e noutros, pelo menos parcialmente, vai engarrafar nas cabeceiras da única ponte.

Não há por ali nenhum sinal de construção, não há pilares, muito menos cabeceiras, não há nada.

Como diria minha filha, “nadica de nadica”.

Por certo, em novembro ou dezembro, haverá alguma informação nova, principalmente quando se aproximarem os fantásticos feriadões de Finados (que cai numa terça) ou Natal e ano-novo, ambos em sextas-feiras.

E, se não quiserem perder tempo, não se aventurem, pois, na melhor das hipóteses, caros leitores, passarão o Natal na fila da ponte de Laguna.

Nem Giuseppe Garibaldi levou tanto tempo para atravessar…


Publicado no jornal ABC Domingo em 17 de outubro de 2010

Houve dezenas de atos pró-duplicação na Ponte da Cabeçuda. O local chegou a ser interrompido um dia inteiro, no final dos anos 90, quando Eliseu Padilha, político do PMDB gaúcho e que não se elegeu a deputado federal nesta eleição, fazia mais uma promessa de colocar a duplicação em prática enquanto era ministro dos Transportes do governo FHC. O que não veio a acontecer.

Em 2004, ainda houve a última manifestação pedindo o começo da duplicação: uma marcha que saiu de Passo de Torres e iria até Palhoça, mas que acabou sendo interrompida em Capivari de Baixo pelo Furacão Catarina em 27 de março daquele ano. O governo Lula tem seus méritos pelo início da obra e empenho em concluí-la, apesar dos pontos pendentes. Mas isso ainda não é suficiente.

Eu, que moro aqui no Rio Grande do Sul e com frequência me dirijo para Tubarão, sei da importância da duplicação: encurta tempo e distância e tornará as viagens mais tranquilas e confortáveis. Seja quem for o próximo presidente da República, terá como dever concluir a duplicação e fiscalizar as obras sem interrompe-las. É um compromisso com a comunidade do Sul de Santa Catarina e com o povo gaúcho que não pode ser ignorado.

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